
A Imperatriz
- Tarô de Yala
- corporeidade
- criatividade
- frutificação
- materialidade
- nascimento
- nutrição
- terreno
A Imperatriz se veste com o símbolo da Vênus, força feminina criativa, ponte entre terra e céu. A água atrás dela reforça sua potência de vida, de maré, da certeza dos processos de transformação e de sua não- linearidade.
Em seu trono, a Imperatriz está sentada, estável, mas não estagnada: observa, continua, cria: é maior que suas dificuldades. Ao lado do trono, as vitórias-régias: plantas nativas associadas à grandiosidade e à nobreza, sagrada em religiões afro-brasileiras, sendo uma das preferidas das Grandes Mães e associada a todas as iyabás, mas especialmente a Oxum.
Seu nome em yorubá (òsíbàtá) significa “não se submete”. Em seu verso (parte que fica em contato com a superfície da água) traz uma impressionante manifestação da geometria sagrada.
Aos pés d’A Imperatriz, loureiros reforçam o triunfo, a arte e a imortalidade. O encontro com A Imperatriz sugere a necessidade de maturidade e criatividade para atravessar momentos de conflito ou uma fase conturbada de um projeto, invocando um olhar mais realista que possibilite reconhecer e agir no que é preciso ser feito.
Adentra os domínios do corpo como um lugar de segurança e pertencimento, de cultivar a criatividade resistente e rebelde, contra-estatística, amadurecida, disciplinada e vitoriosa. Aponta para uma sabedoria que reconhece e confia na experiência, e aposta no corpo como canal criativo de desenvolvimento profundo.
É a descoberta do corpo como algo valioso, a compreensão de ser parte da natureza e estar sujeita a seus ciclos e a apreciação dos sentidos da existência. Fala de importância da sabedoria para driblar e administrar o caminho e os percalços e também para colher os frutos e gozar os louros.
Existe um lugar-comum sobre falar de Elza que é falar do sofrimento de sua juventude e parte de sua vida adulta: a pobreza material na infância, o casamento aos 11 anos, a maternidade precoce, a fome, os filhos que faleceram cedo demais, os casamentos com parceiros violentos e alcoólatras, os lutos que vieram disso, a casa metralhada pela ditadura militar, o exílio, mais luto, depressão — e depois a reconstrução, dedicando-se a si mesma e à sua arte, viajando pelo mundo. Mas Elza é uma força da natureza que precisa ser exaltada para além de suas tragédias, ainda que com o reconhecimento do lugar que ocupa como símbolo da luta real das mulheres do Brasil e da América Latina. Ela leva títulos como “cantora brasileira do milênio” (BBC de Londres) e ficou em 16º lugar na lista das 100 maiores vozes da música brasileira, da revista Rolling Stone. Elza é a única Imperatriz possível: um caminho de arte, gozo, riso e grito para nutrir a fé de que um dia a luta seja história. Veio do planeta fome, acorda maré, dorme cachoeira: não obedece, porque é molhada.
Representação: Elza Soares